Recentemente na introdução de um sermão que preguei aqui na nossa igreja, mencionei que um certo comediante, ao ser questionado sobre crer ou não em Deus, fez uma crítica aos cristãos, alegando que escolhemos apenas os assuntos da Bíblia que mais nos agradam, enquanto evitamos temas difíceis, como: aborto, incesto, estupro, genocídio de bebês, escravidão etc. Logo, a compreensão dos “cinco por cento dos leitores da Bíblia” (segundo estatística do próprio comediante) viria da interpretação de terceiros. Um perigo mortal nas palavras dele.
Sem entrar na desonestidade do argumento (comum para alguém que desconhece as Escrituras Sagradas e que enxerga a Bíblia apenas como uma arma de poder), uma lida superficial apenas no primeiro livro da Bíblia – Gênesis – prova exatamente o contrário. As Escrituras escancaram os assuntos difíceis. De Adão aos irmãos de José; de Moisés à Malaquias; da genealogia de Cristo às cartas escritas por João na ilha de Patmos, destinadas às sete igrejas da Ásia Menor; se há algo que a Bíblia não faz é “passar pano” para a miséria humana. Pois é exatamente esta miséria humana que se torna matéria-prima para a história da redenção que o Senhor escreveu para a sua glória!
Uma história recheada de assuntos difíceis de engolir, mas que são embrulhados em graça e misericórdia e comunicados a nós com bondade e paciência, para que, não apenas nos identifiquemos com essas histórias, mas que encontremos a mão soberana de Deus em tudo. Seja com a serva-mãe e seu filho renegado no deserto (Gênesis 21.8-21), ou com o discípulo visto na figueira antes de conhecer o Salvador que já o conhecia (João 1.43-51).
A pergunta que precisamos nos fazer é: se a Bíblia não se omite em falar de assuntos desafiadores, porque nós, conhecidos como o “povo do Livro”, tememos tanto falar de assuntos que parecem impossíveis de serem tratados?
Acredito que a resposta seja uma faca de dois gumes: por um lado, temos medo de dizer qualquer coisa em um mundo que se apoia na censura e na cultura do cancelamento, que torna a expressão uma arma de conveniência. Ou seja, “sua opinião só é válida se estiver de acordo com o que nós concordamos”. Assim, somosencurralados em nossa fé, por mais preciosa, histórica e robusta que ela seja.
Por outro lado, há uma omissão preguiçosa, resultado da nossa própria produção teológica. Fomentamos a teologia, mas usamos os nossos mestres como muletas para não caminharmos na profundidade teológica que nos capacitaria a dar a razão da nossa esperança a todo aquele que nos pedisse (1 Pedro 3.15). Assim, nos aproveitamos do nosso privilégio de ter homens experimentados na Palavra como pretexto para não estudarmos mais sobre a Bíblia. Logo, não crescemos no conhecimento do Senhor, e muitas vezes, somos obreiros envergonhados que não manejam bem a sua Palavra.
Independentemente da razão de evitarmos falar sobre determinados assuntos (por medo ou preguiça), a Palavra do Senhor nos ensina a evitar discussões insensatas (2 Timóteo 2.23; Tito 3.9), bem como nos a falar na hora certa, pois há tempo para isso (Eclesiastes 3.7). Gosto de como Provérbios 26.4-5 nos ensina a lidar com o insensato, por exemplo: “Não responda ao tolo com igual insensatez; do contrário, você se igualará a ele. Responda ao tolo como a insensatez dele merece; do contrário, ele pensará que é mesmo um sábio” (NVI). Ou como a Nova Tradução na Linguagem de Hoje bem traduz: “Quem dá uma resposta séria a uma pergunta tola é tão tolo como quem a fez. Responda ao tolo de acordo com a tolice dele para que ele não fique pensando que é sábio”.
Contudo, precisamos ponderar: nem todos os tolos deste século estão fazendo perguntas como os fariseus da época de Jesus, tentando “enlaçá-lo” (Mateus 22). Alguns questionamentos surgem da expectativa pela maneira como os cristãos enxergam a realidade que atormenta a humanidade caída. Não podemos nos esquecer deste detalhe: o pecado permeia todas as áreas da nossa existência, causando rupturas entre o homem e Deus, o homem e a criação e entre o homem e o seu semelhante. A Bíblia chama isso de “a ardente expectativa da criação que aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Romanos 8.19). É claro que não podemos ser ingênuos. Há arrogância no ímpio ao perguntar: “e o teu Deus, onde está?”, enquanto diz em seu coração: “Não há Deus” (Salmos 42.3; 14.1). Contudo, somos chamados a ser “apegados à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenhamos poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tito 1.9).
Durante este mês de fevereiro, trataremos de “temas desafiadores” como imoralidade sexual, racismo, radicalismo político e aborto, em nossos cultos matutinos. E queremos convidar você a ouvir o que a Palavra de Deus tem a dizer sobre cada um desses assuntos, e ser fortalecido na fé para responder a este mundo sobre a razão da sua esperança.
Que Deus te abençoe!